Era um dia qualquer de uma semana que se passou anos atrás, e que hoje parece quase uma alucinação, um tanto quanto irreal.
Eu pisquei e um segundo havia se passado do momento em que você partiu;
Respirei fundo para conter o descontrole, uma lágrima se foi com o vento e um minuto inteiro havia se passado sem você;
Lutei contra os pensamentos e a chateação e sem esperar uma hora havia se passado;
Sua falta começou a doer de repente e um dia tinha se completado sem você;
Uma crise de choro em um dia qualquer e me lembrei que fazia uma semana que havia estado na sua presença uma última vez;
Sonhei com o seu sorriso e um mês havia corrido de pressa;
Estava realizando as tarefas do cotidiano quando me ocorreu que um ano se foi como brisa do verão desde a última vez que coloquei meus olhos em você;
Estava sorrindo quando inesperadamente uma pontada aguda me atingiu no peito e então me lembrei que dez anos se passaram ligeiros sem a sua presença;
E vieram os onze anos sem seu cheiro...
Os doze sem o doce som da sua risada...
Os treze chegaram solitários quando me lembrei que refizemos nossas vidas um sem o outro. A sua presença se foi a tanto tempo que quase parece que nunca existiu.
Ao longo dessa jornada sem você reconstruí a minha vida sem te ouvir sorrir e chorar. Sem saber se você estava bem ou quais eram os planos para o amanhã.
E os filhos que sonhamos juntos viraram os meus filhos sonhado com outra pessoa.
A música que era nossa virou a minha música com outro alguém.
Os sonhos que eram nossos passei a sonhar com outra pessoa.
E quando chegou a perda do meu primeiro filho, que nunca chegou a ser o nosso tão sonhado bebe a dor me dilacerou, me destruiu e então me lembrei de você e a dor doeu duas vezes. Quis compartilhar com você esse momento, quis que você soubesse e que chorasse mais uma vez comigo mas você se tornou irreal de mais pra isso.
Você quase parece uma ilusão criada pela minha cabeça, tão efêmero e tão passageiro que realmente é como fruto de uma imaginação fértil de mais, volátil em excesso. Mas as vezes sinto tanto a sua falta que queria que se materializasse na minha frente, que nunca tivesse saído de onde meus olhos pudessem acompanhar.
E mesmo após tantos anos continuo te escrevendo silenciosamente. Um hábito que nunca morreu completamente. Na correria do dia a dia ainda te sinto no meu coração. Te lembro ao acordar e ao dormir. Me lembro que refez a sua vida e que vive ela sem mim. Os pensamentos são egoístas, quero deixar tudo para trás e te buscar, tentar recuperar o tempo perdido então me lembro que nós existimos mais um para o outro. O que restou foram as poucas lembranças juntos, sem nem uma foto para comprovar a realidade que existiu.
Guardo no meu coração a memória do que fomos um para o outro e tento me lembrar disso com ternura, tento dia após dia colocar um ponto final numa passagem que nunca teve realmente um fim. Pior que a dor do ponto final é conviver com um sentimento constante de reticências, de algo que não encontrou seu fim por uma justificativa plausível.
Sigo buscando refúgio nas minhas linhas tão cheia de palavras que nunca serão lidas por você. Sigo vivendo minha vida com uma parte do meu coração incompleta e uma parte das memórias preenchidas com a sua ausência.
Fiquei bem!
D.K