terça-feira, 16 de maio de 2023

Lembranças

 Londrina, 16 de maio de 2023.


Querido,


Parada aqui, olhando para 11 anos atrás, consigo ver com detalhes as minhas mãos suadas, batimento acelerado. Consigo ver a ansiedade que percorre cada centímetro do meu ser. É dia 16/05/2012, acordei e o dia estava diferente. Poderia ser mais uma quarta-feira qualquer mas não é. Eu nem dormi a noite, a ansiedade já me pegou de jeito muitas horas antes desse dia amanhecer, bem no momento em que fui informada de que você estaria aqui. Era real, não era outro dos infindáveis sonhos que já vinha tendo a mais de um ano. 

Na noite anterior, enquanto conversávamos despretensiosamente, da mesma forma que já era habitual entre nós, te vejo fazer as malas. Demorei a crer quando me falou do seu destino de viagem, não parecia real. E pelas próximas horas continuava não crendo, não ate descer naquele terminal, sair vagando pelos corredores e sentir que alguns poucos segundos eram como horas, e todos os rostos que via não eram o seu. O coração insistia em bater descompassado, as mãos trêmulas e as pernas bambas, esse era o estado que estava quando meus olhos finalmente encontraram com os teus em um canto. Sentado, provavelmente no mesmo estado de nervosismo que eu, não tenho dúvidas. Você queria isso tanto quanto eu, aliás hoje vejo o quanto mais que eu você ansiava por isso… deixou para trás sua família, sua vida e partiu rumo ao desconhecido com nada mais do que a coragem. Corajoso, é assim que te vejo agora. Foi capaz de abrir mão de tudo e correr atrás do que queria, e hoje vejo o quanto disso faltou em mim… que pesar não ter me dado conta disso na época. 

 No momento em que te vejo sentado me olhando, o pouco de juízo que me restava vai embora, tudo em nossa volta é ofuscado, só consigo olhar nos teus olhos castanhos e sentir uma paz me invadir. É real, você está parado me encarando como se também não acreditasse. Congelo alguns segundos com medo de correr ao seu encontro e acordar sozinha na minha cama. 

 É inexplicável a sensação de ser envolvida pelos teus braços, de sentir o teu cheiro, te apertar e ter certeza de que aconteceu mesmo, você é real. O mundo finalmente para naqueles minutos abraçados… estamos enfim em casa (pela primeira vez nessa vida que estamos vivendo aqui, embora eu tenha certeza plena de que essa não é a primeira em que estamos juntos e conectados, o tempo que eu te conheço vai muito além dessa vida). Eu não sei dizer qual foi o tempo que permanecemos estáticos, abraçados, matando a saudade de uma coisa que nem sabia que tinha. Mas vamos combinar, desde o princípio a nossa ligação era surreal. 

 Uma jovenzinha no auge dos seus 15 anos disse uma vez “era apenas para ajudar com outros amores, então tomei as tuas dores e senti por você uma coisa que jamais havia sentido, te amei desde o primeiro momento, amei com todo o coração”. Mal sabia ela o quanto de verdade tinha nesse pequeno trecho escrito com todo amor do mundo, inclusive um dos primeiros que te escreveu. 

 Saímos do nosso torpor ainda meio estasiados pela presença um do outro e seguimos em direção ao local mais provável para os jovens da nossa idade, e, mais uma vez, me surpreendeu ao me roubar o meu primeiro beijo exatamente do jeito que eu havia imaginado. Naquele cinema, no meio do filme, enquanto todos estavam empolgados de mais nas cenas olhei para o lado e te vi, me olhando meio abobado com um sorriso que eu não esqueceria nem em mil anos. Parado ali, sorrindo e encarando o fundo da minha alma você se aproximou, segurou minhas mãos e me beijou, um beijo tão apaixonado, tao doce que se fechar os olhos ainda consigo sentir. Essas foram as coisas que me marcaram profundamente nesse dia, não me lembro do momento em que o filme acabou, nem de quando fomos embora, estar ali naquele momento com você é tudo de que eu me lembro, e é tudo que me importa guardar. Ali completei a certeza de que você estaria registrado em mim pelo resto da minha vida. 

 Eu pisquei, e chegou o dia em que eu te veria todos os dias pela manhã. E ai começou então a nossa primeira decepção, quando descobrimos que te colocaram numa sala diferente da minha. Embora tivéssemos tentado de todas as maneiras mudar, não permitiram. Relevei, ainda sim estava feliz pois te via nos intervalos. Nem o frio ou chuva foram capazes de afastar a força de vontade de ficar juntos, e me lembro claramente de estar no nosso lugar te esperando todas as manhãs. Não via a hora de te ver descer e correr pra me abraçar, de sentir você, seu cheiro. Enrolar e pegar o caminho mais longo, dar voltas desnecessárias, tudo para conseguir aproveitar até o ultimo minuto do tempo que a gente tinha. E que tempo contado era esse, se soubesse que o tempo seria tão escasso como foi de fato, teria dados mil voltas a mais, teria te segurado até muito mais tarde, teria me arriscado muito mais. Naquele tempo não podia compreender tudo isso, achava que teríamos todo o tempo do mundo… tão inocente. 

 Algumas cenas me marcaram muito nesses quase 60 dias que passamos tão próximos, e uma delas foi o meu aniversario. Para algumas meninas os 15 anos são sinônimo de uma das festas mais importantes da vida, de extravagâncias. Eu nunca tive esse sonho. O meu, apesar de parecer impossível já estava bem ali, ao meu alcance. Meu sonho me mandava mensagem a tarde dizendo que estava nervoso de conhecer os meus pais (embora a única que soubesse que estávamos juntos fosse a minha mãe). E eu me lembro de cada detalhe daquela noite, desde o momento em que você chegou até o que ficamos no nosso lugar, por horas colados, perdidos no nosso momento. Desse dia, além das lembranças, ficou a frase que guardo comigo até hoje “amor eterno amor”, gravado em prata e na alma, em cada dia que vivo e respiro, e em cada uma das infinitas conversas que tivemos desde então. 

 Não eramos perfeitos, mas me sentia completa ao seu lado. Em cada momento que passamos juntos, cada uma das vezes que me chamou de minha pequena, minha baixinha, vida. Cada instante que pudemos estar presentes na vida um do outro fisicamente me mudaram pra sempre. Me lembro muito bem do ultimo dia que te vi, foram tantas horas protelando, sofrendo e muitas lágrimas derramadas. Eu me lembro de não querer te soltar e depois te de entregar para o mundo, sem hesitar. No fundo eu desconfiava que voltaria, que não viveríamos um sem o outro… tão inocente.

 Desde então temos sido eu e você, nunca mais fomos nós. Sua vida seguiu, a minha seguiu. Tanta coisa mudou. Tanta coisa continua igual. Nunca tivemos força pra deixar o outro de vez, o nosso fim nunca chegou. São tantos momentos não vividos, tantas promessas quebradas. São 4.015 dias que separam de quem somos de quem fomos. E em nenhum desses tantos dias pude deixar de pensar em você. 

Algumas vezes em que a saudade fala alto, em que a gente se encontra nos sonhos, fica quase impossível não te chamar, ou desejar ouvir a sua voz. Somos ligados por um fio que se estica ao passar dos dias, que se aproxima quando dormimos ou quando estamos pensando um no outro, somos ligados pelas memórias do que foi e mais ainda do que não foi, somos sonhos interrompidos, somos um só separados e vivendo como se fossemos dois. 

  Eu vivo e sou a saudade de estar com você, o desejo de sentir novamente o seu cheiro e me sentir completa e em casa ao estar nos seus braços, navegando no fundo dos teus olhos castanhos. Se não for nessa, te espero na próxima vida, com a certeza de que qualquer que seja o corpo ou o tempo eu te reconhecerei. 


D.K